Magnum Foletto
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Consciência6 min read

A confiança que chega antes da competência

Dunning–Kruger nos projetos: a confiança chega antes da competência. Meu papel é fazer a turma sentir o fundo da curva na sala, e não na frente do cliente. Também duvidar e agir sem paralisar.

Já participei de dezenas de programas grandes, daqueles que se abrem em muitos subprojetos. E quase sempre a cena começa igual. Alguém faz um levantamento raso, olha um problema gigante por cima e crava um prazo curto. Não vê lacunas. Não vê os riscos. Não vê o que precisaria estar pronto, definido e negociado antes de começar. Propõe fazer, num volume de negócio enorme, algo que nunca fez. E se der errado, o estrago é grande.

Eu já fui essa pessoa. Comecei sem saber, tomei risco, assumi falhas. Na época o negócio suportava, e o tamanho também aguentava. São as vantagens de começar pequeno e subir andar por andar, pelas escadas, sem elevador. Hoje não é mais assim. Nos últimos dez anos, a tolerância do mercado em que estamos, do cliente e do próprio negócio reduziu muito. O laboratório onde eu aprendi errando foi se fechando.

O nome disso

Existe um nome para a primeira cena. Dunning–Kruger. A versão de reunião é simples: a pessoa sabe o suficiente para ter opinião, mas não o suficiente para saber que a opinião é fraca.

Quem entende pouco de um assunto também não tem repertório para medir o quanto entende. Então a confiança vem cedo, antes da competência. O leigo confiante mata o tema em trinta segundos. Quem entende de verdade começa devagar. Diz "depende". Pergunta qual é a premissa. Procura a exceção. Parece mais lento. E custa menos no fim.

Tem um detector que nunca falha. É a palavra "só". É só colocar IA. É só migrar para a nuvem. É só trocar o sistema. É só integrar via API. Toda vez que escuto "é só", sei que estou diante de alguém que não enxerga as camadas invisíveis do escopo. E não enxerga porque não conhece. Ninguém vê o que desconhece.

O que acontece com o tempo

A confiança sobe rápido no começo. Depois cai. A pessoa estuda mais, esbarra na complexidade real e percebe que sabia menos do que achava. Esse é o fundo, o ponto em que a humildade chega. Com prática, erro e feedback, a competência cresce de verdade, e a confiança volta. Só que volta diferente. Não é mais arrogância. É confiança com lastro.

O especialista maduro não diz "tenho certeza absoluta". Ele diz "com estas premissas, o caminho mais provável é este, e estes são os riscos". No fim da curva a pessoa sabe mais, confia mais e duvida melhor.

Tem uma armadilha aqui. Quem não recebe feedback, não estuda e não é confrontado pela realidade fica preso no pico inicial. Aí não é curva de aprendizado. É convicção reciclada.

O problema que mudou

O fundo da curva se atravessa errando. É o erro com feedback que calibra a confiança. Esse sempre foi o mecanismo. Mas é justamente ele que ficou caro. A tolerância à falha encolheu, e o lugar onde se aprendia caindo desapareceu. A curva continua exigindo as mesmas voltas. O custo de cada volta subiu.

É nesse ponto que o meu papel mudou. Deixou de ser só trazer consciência. Passou a ser outra coisa, mais específica: fazer a turma sentir o fundo da curva sem deixar o negócio pagar a conta.

Tenho procurado antecipar o tombo no papel para ele não acontecer no mercado.

As perguntas que tenho feito nas agendas servem para isso. Qual é a premissa. Qual é a exceção. O que mitiga esse risco antes da execução. Cada pergunta dessas derruba um pouco da confiança rasa, num lugar barato: uma sala de reuniões, um pré-mortem. A queda acontece ali, e não num projeto já rodando com o cliente participando.

Meu trabalho não é entregar a resposta, embora às vezes eu cometa esse erro. É alargar o campo de visão da pessoa até ela mesma começar a falar "depende". O sinal de que deu certo não é o time concordar comigo. É o time passar a fazer as perguntas difíceis sozinho, antes de eu chegar.

E tem um cuidado que eu levo a sério. Confiança calibrada e paralisia se parecem muito por fora. Se eu encho alguém de risco e exceção sem dar também a moldura para decidir, empurro a pessoa do excesso de confiança direto para o medo de decidir. Ela trava em vez de avançar. Por isso procuro deixar claro que quase nunca existe o certo e o errado. Existem caminhos com prós e contras. O objetivo não é eliminar o risco. É escolher, de olhos abertos, qual risco se aceita e como mitigá-lo.

O que fica

No fim, o que tenho feito é menos ensinar conteúdo e mais encurtar a distância. A distância entre o pico ingênuo e a confiança com critério. Sem que ninguém precise cair no fundo na frente do cliente, com o negócio já em execução.

É difícil, porque eu peço duas coisas que, no começo, parecem inimigas. Peço para a pessoa duvidar e agir ao mesmo tempo. Duvidar o bastante para não subestimar o problema. Agir o bastante para não travar diante dele.

A evolução não é sair da ignorância para a certeza. É sair da certeza ingênua para a confiança com critério. E o meu papel, em cada agenda, é incentivar a turma a aprofundar, aprender rápido e ir pra cima do desafio. Sem deixar que o primeiro tombo seja o único que ensina.

E aqui está o ponto em que me encontro: o que descrevi acima ainda não domino. Estudo e me observo enquanto faço, para deixar esse posicionamento mais profissional e mais fácil de a turma capturar. A ironia não me escapa. Passei o texto falando da curva, e agora sou eu medindo o quanto ainda preciso evoluir nela. Minha confiança neste tema é menor hoje. Caí no meu próprio fundo. Mas sigo adiante, me questionando mais e buscando mais, sem paralisar, que é o que eu peço para os outros fazerem.

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