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A arte que divide a casa comigo
Convivo com as telas da Shana todo dia. O que aprendi sobre arte abstrata — e sobre a minha própria cabeça — morando com ela.
A Shana pinta. Eu convivo com as telas dela todo dia, nas paredes de casa, muito antes de qualquer uma virar "obra" para alguém de fora. Por isso escrevo sobre arte abstrata de um lugar específico: o de quem mora com ela, não o de quem visita uma galeria.
Demorei a entender arte abstrata. Venho de uma cabeça treinada para procurar função, explicação, o que aquilo "quer dizer". Diante de uma tela sem figura, eu travava — como muita gente trava — esperando decifrar uma mensagem. Levei tempo para perceber que não era para decifrar. Era para sentir, e depois, se quisesse, pensar.
As telas da Shana são de cor forte e contraste, formas que não representam nada que eu consiga nomear — e é exatamente por isso que mexem com quem olha, sem pedir licença. Uma mesma tela me parece uma coisa num dia e outra completamente diferente no outro. Não foi a tela que mudou. Fui eu, e o que trago comigo quando paro na frente dela. Aprendi mais sobre como minha própria cabeça funciona olhando para o trabalho dela do que em muito texto sobre o assunto.
Tem também o que vejo de perto e quase ninguém vê: o processo. Uma tela abstrata parece espontânea, mas há decisão em cada camada — o que fica, o que é coberto, quando parar. É um tipo de trabalho que não admite fingimento. Ou a coisa tem verdade, ou não tem — e isso aparece na hora.
Não escrevo como crítico de arte, que não sou. Escrevo como alguém que teve a sorte de ter esse trabalho por perto tempo suficiente para mudar de ideia sobre ele. Se você também trava diante do abstrato, talvez o convite seja simples: parar de perguntar o que significa e reparar no que sente.
O trabalho da Shana está em shana.foletto.me.

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