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O trem que eu quis pegar aos dez anos
Aos dez anos, no interior do RS, sonhei em andar no Eurostar. 28 anos depois, embarquei. Mas o post é sobre minha tia Rosana.
Em 1994 eu tinha dez anos e morava no interior do Rio Grande do Sul. Minha tia Rosana, percebendo que eu tinha começado a estudar inglês e estava empolgado com aquilo, me deu uma edição da Speak Up — aquela revista que vinha com uma fita cassete para treinar o ouvido nas matérias.
A matéria que eu mais ouvi e reli foi sobre o túnel sob o Canal da Mancha e o Eurostar, o trem-bala que ligaria a Inglaterra à França por baixo do mar. Para um menino do interior que mal tinha saído do estado, aquilo era ficção científica. Lembro de pensar, sem nenhum plano de como: um dia eu vou andar nesse trem.
Vinte e oito anos depois, embarquei em Londres com destino a Paris, no Eurostar. Não foi uma viagem qualquer — eu carregava aquele menino comigo.
Conto isso menos pela viagem e mais pela tia Rosana. Ela não me deu um presente caro nem uma grande lição. Ela reparou. Percebeu um interesse pequeno no momento certo e o alimentou com uma revista e uma fita. Foi suficiente para acender algo que durou quase três décadas.
É isso que aprendi a valorizar olhando para trás: o imaginário de uma criança é enorme, e quase sempre o que falta não é talento — é alguém que perceba e aposte naquilo a tempo. Hoje, como pai e como gestor, tento ser esse tipo de gente: o que repara no interesse do outro antes mesmo que ele saiba nomeá-lo.
Obrigado, tia Rosana. O trem chegou.




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